<![CDATA[Brian Kibuuka - O Divórcio entre Jesus e os Evangelhos]]>Tue, 28 Nov 2017 23:55:07 -0800Weebly<![CDATA[O nascimento da história e do Jesus Histórico]]>Sat, 14 Jan 2017 05:39:36 GMThttp://briankibuuka.com.br/o-divoacutercio-entre-jesus-e-os-evangelhos/o-nascimento-da-historia-e-do-jesus-historico​A questão do Jesus histórico se dá mediante a compreensão de que a pessoa Jesus pode ser elucidada mediante a disciplina nascente, a história. E sob a égide do nome história, utilizado em uma acepção moderna que é nova no percurso investigativo humano sobre o seu passado, que emergem novas demandas – e a principal delas: a análise da veracidade dos textos que antes serviam, sem grandes questionamentos, para descrever uma personagem histórica. Antes do século XVI, os evangelhos eram utilizados como fontes fidedignas para falar de Jesus, Paulo, da Igreja Primitiva. Na modernidade, a objetividade, a neutralidade, o racionalismo e o naturalismo metodológico surgem como novos referenciais básicos para o fazer histórico, referenciais que são, ao mesmo tempo, medidas para atestar a veracidade ou não de um texto.

As questões relacionadas à verdade histórica dos textos religiosos e da crítica dos documentos que lhe servem de base emergem com força nos séculos XVII e XVIII sob o influxo das ideias racionalistas, empiristas, mas principalmente deístas, em especial, as de David Hume. Os evangelhos do Novo Testamento estão eivados de milagres, de narrativas pertencentes ao campo do sobrenatural e do maravilhoso. A filosofia de Hume, por outro lado, impede qualquer expressão proveniente de algo sobrenatural, sem, contudo, impedir a sua percepção. No caso, em An Enquiry Concerning Human Understanding [Um ensaio acerca da compreensão humana] de 1748, Hume afirma na seção 10 (‘Sobre os Milagres’) que o milagre é “uma transgressão de uma lei da natureza por uma volição particular da Deidade, ou pela interposição de algum agente invisível”. Sendo assim, não há razoabilidade no milagre, já que ele contraria a experiência e a lei da natureza, que é em si fruto do determinismo físico que rege o universo. Se há alguma percepção de irrupção da ordem natural das coisas, ela provavelmente procede da ignorância das causas, ou de uma ilusão, visto que vigora no homem o determinismo psicológico. A história é um dos resultados da superioridade do instinto natural como princípio que provoca como efeito o conhecimento. Em seu artigo On the study of history [Sobre o estudo da história], Hume apresenta a proposta de uma história filosófica para as mulheres, história que visa instruir e entreter. Não há espaço para uma história do fantástico, exceto na excepcionalidade dos atos e do caráter dos seus protagonistas.

A influência das ideias de Hume sobre o milagre, sobre a divindade deísta e sobre a história se dissiparam por toda a Europa e deixaram marcas profundas entre os germânicos, como se pode perceber na pesquisa bíblica. E é a partir de tais referenciais que Hermann Samuel Reimarus (1694-1768) lança o debate a partir de sua obra Apologie der Schutzschrift für die vernünftigen Verehrer Gottes [Apologia ou cartas para adoradores razoáveis de Deus].[1] No capítulo intitulado Von dem Zwecke Jesu und seiner Jünger [Sobre os propósitos de Jesus e de seus discípulos],[2] Reimarus declara haver diferenças importantes entre o que Jesus era e aquilo que os seus discípulos afirmaram sobre ele. A diferença principal que é apontada por Reimarus entre Jesus e os seus discípulos se dá na distinção de atitude em relação à morte: enquanto Jesus, o reformador judeu politizado e condenado, brada o seu fracasso na cruz, os discípulos construíram a partir desse fracasso um modelo diferente de Messias, um Jesus que eles sabiam ser falso – mais que um político, um taumaturgo, um ser divino. Funda-se aqui, pelo menos para a pesquisa moderna, a oposição entre história e fé nos termos de uma distinção crucial entre um Jesus que pode ser submetido à análise factual em oposição a outro, alvo de crença, divinizado. Este último Jesus é alçado à estatura de Cristo mediante uma falsificação histórica provocada pelos discípulos, que rompem assim com os critérios do fazer histórico correto proposto por Reimarus.

O segundo influxo na pesquisa sobre Jesus se dá por iniciativa do Barão d’Holbach. Paul Heinrich Dietrich, alemão de Edesheim que migrara para a França e adotara ali o nome Paul-Henri Thiry Holbach, escreveu a obra Histoire critique de Jésus-Christ: ou Analyse raisonneé des Evangiles. Ecce Homo [História crítica de Jesus Cristo ou análise racional dos evangelhos. Ecce Homo] e a publicou anonimamente em 1769 na cidade de Amsterdã. No decorrer do texto, episódios da vida de Jesus, desde o nascimento até a morte, são descritos a partir da premissa de ser Jesus um homem natural – e, portanto, histórico, desprovido das sobrenaturalidades que perpassam as narrativas evangélicas a seu respeito. A perspectiva crítica de d’Holbach se converte em um campo investigativo – história. A fala de Jesus a partir da descrição de sua vida recebe o nome de história, não mais cristologia, nem mais biografia. A concepção virginal, a ressurreição, as profecias, se tornam dados que devem ser submetidos à discussão e crítica. Ainda se pode ver em d’Holbach a menção aos teólogos, ou aos incrédulos, mas o pêndulo está nas mãos do crítico, o próprio autor da obra, que descreve Jesus em termos muito menos elevados que os utilizados nas obras encomiastas do século da Reforma. Surgiu um novo campo e, com ele, uma nova (e limitada/limitante/limitadora) forma de apresentar Jesus: a partir das concepções de verdade e mentira, de fato ou ilusão, de fé ou história (não mais razão, ou ciência). E tal se deu antes mesmo da disciplina história obter de forma mais evidente o status de disciplina que se lhe dará nos séculos seguintes.

David Friedrich Strauss (1808-1874) é o próximo a interferir decisivamente no curso da pesquisa sobre Jesus. Autor ligado à Escola de Tübingen, Strauss foi aluno de Friedrich Heinrich Kern[3] e Ferdinand Christian Baur. O seu pensamento é influenciado pelo hegelianismo que grassa os estudos da sua universidade e da filosofia da história que Hegel propusera.[4] A Escola de Tübingen dedicara-se aos estudos do Novo Testamento a partir do viés histórico mediante a aplicação do método hegeliano, tendo à época o próprio F. C. Baur,[5] Eduard Zeller[6] e Adolf Bernhard Christoph Hingenfeld[7] como principais nomes. Entre 1835 e 1836, Strauss publicou a obra Das Leben Jesu, kritisch bearbeitet [A vida de Jesus examinada criticamente], na qual ele descreve a informação histórica sobre Cristo como mito a partir da influência que recebeu de David Hume. Em oposição ao Jesus batizado por João Batista, que ensinara, fizera discípulos e morrera por causa da hostilidade dos fariseus, o Cristo da narrativa dos discípulos (e, por conseguinte, dos evangelhos) era o resultado do cruzamento de informações de sua vida e a harmonização de sua vivência histórica com as profecias do Antigo Testamento. Os cristãos primitivos, ao forjarem uma ‘estória’ a partir de Jesus, tornam-no o Messias, ideia a partir da qual mitos e lendas foram criados pela comunidade cristã para veicular a sua fé. Para recuperar o Jesus da história, Strauss propõe uma leitura que encontre no mito a biografia de Jesus, uma tarefa quase impossível de ser cumprida pela dificuldade de discernir os fatos em meio a tantas inovações por parte dos primeiros discípulos.

O resultado imediato do influxo da pesquisa de Strauss foi uma nova oposição. A história, campo a partir do qual se entende o verdadeiro, o correto, o factual, que se opusera à fé, agora se opõe ao mito. Jesus e Cristo estão em campos opostos, sendo a tarefa de a Kritik conceber uma figura histórica dissociada de qualquer arroubo de sobrenaturalidade ou excepcionalidade. A consequência disso foi a descrição de um Jesus sem evangelho, cuja motivação e ação se deram no campo das relações circunscritas a um espaço geográfico e tempo específicos, nos quais as interações provocaram, na lógica de causalidade que governa a descrição, uma ruptura com qualquer ideia de irrupção, de disjunção. As relações na temporalidade e espacialidade circunscrita descrita pela crítica de Reimarus, d’Holbach e Strauss, sendo sujeitas às mesmas ordenações e limites, exigem, numa descrição histórico-crítica, a supressão dos conteúdos dos evangelhos que apontem para uma ruptura da ordem vigente. Sendo assim, Jesus não é divino; sua morte é excepcional, porém natural; e seus discípulos, para além de seguidores, são forjadores da continuidade do argumento.

A pesquisa dos séculos XVII e XVIII sobre Jesus, ainda que sofra a influência dos deístas e rompa com as concepções de fé e mito, como se viu acima, ainda conservava a concepção de infalibilidade da Escritura como um valor fundamental. As reações às obras de Reimarus, d’Holbach e Strauss foram efusivas e calaram, de alguma forma, o influxo da nova pesquisa emergente. Porém, ainda com as reações, sedimenta-se um método que junge história e crítica, e que culminará na análise do texto bíblico sem a égide da dogmática. A separação requerida por Griesbach entre a teologia dogmática e a teologia bíblica torna-se, no fim do século XIX, uma separação de fato nos autores Renan, Michaelis, Lessing, de Wette, Bleek, Wilke, Weisse e Holtzmann, com um avanço fundamental – a respeito do divino, com raras exceções, restara apenas o nome.


[1] Os chamados Wolfenbüttelschen Fragmente [Fragmentos de Wolfenbüttelschen] receberam originalmente o nome de Apologie oder Schutzschrift für die vernünftigen Verehrer Gottes [Apologia ou cartas para adoradores razoáveis de Deus]. Eles foram escritos entre 1735 e 1767/68 e foram publicados fragmentos (7, ao todo) por Gotthold Ephraim Lessing em 1774 e 1777/78 sob o título Textes eines Ungennanten [Texto de um anônimo]. O quarto fragmento publicado por Lessing em 1777 provocou fortes reações. Uma segunda porção da obra de Reimarus foi publicada em 1787 por C. A. E. Schmidt (pseudônimo) sob o título Übrige noch ungedruckte Werke des Wolfenbüttelschen Fragmentisten [Outros trabalhos ainda inéditos do fragmentista de Wolfenbüttelschen]. Outros fragmentos da obra de Reimarus foram publicados por Wilhelm Klose no jornal editado por Christian Wilhelm Niedner, entitulado Zeitschrift für historische Theologie [Revista de Teologia Histórica], publicada em 1850-1852. Uma cópia do texto foi feito e mantido como obra coletiva em 1813 na biblioteca da Universidade de Göttingen. A publicação da obra completa foi feita apenas em 1972, por Gerhard Alexander, em dois volumes.

[2] O texto, publicado por Lessing, é o sétimo e último fragmento da coletânea.

[3] Friedrich Heinrich Kern (1790-1842) foi o responsável por importantes desenvolvimentos da pesquisa em Tübingen sobre as cartas paulinas, em especial, sobre a questão da pseudonomínia. Ver: “Über 2. Thess. 2,1-12.  Nebst Andeutungen Über den Ursprung des zweiten Briefs an die Thessalonicher", Tübinger Zeitschrift für Theologie, Jahrgang 1839, 2. Heft, 145-214 [“Sobre 2 Ts 2.1-12 e pistas sobre a origem da segunda carta aos Tessalonicenses”. Jornal de Teologia de Tübingen, 1. Ed 1839, reimpressão, p. 145-214]. 

[4] Georg Friedrich Hegel (1770-1831) é responsável pela introdução da dialética na descrição histórica do cristianismo feita por Baur. Se para Hegel, a primeira grande fase é caracterizada pela unidade originária na Grécia sob o influxo de Der wahre Geist [o Espírito verdadeiro], passando á segunda fase (da Roma Antiga até a Revolução Francesa, fase de Der sich entfremdete Geist [o Espírito alienado de si mesmo]), chegando à fase do Estado racional, fase em que Der seiner selbst gewisse Geist [o Espírito (está) certo de si mesmo]. A mesma lógica corre com Baur, mas com outros agentes: oposição entre o cristianismo judaizante dos primeiros apóstolos; o evangelho universalizante e liberto da Lei, de Paulo; e o evangelho joanino.

[5] Baur (1792-1860) é o autor mais influente da Escola de Tübingen no que diz respeito aos estudos do Novo Testamento em geral, e sobre Paulo, em particular. Em relação aos evangelhos, Baur propunha na obra Kritische Untersuchungen über die kanonischen Evangelien, ihr Verhältniss zu einander, ihren Charakter und Ursprung [Estudos críticos dos evangelhos canônicos, sua relação com o outro, a sua natureza e origem] de 1847 que os evangelhos revelam uma tendência conciliatória (Tendenz), sendo o resultado das adaptações e redacionamentos a partir de um evangelho mais antigo, sendo Mateus o evangelho mais próximo ao Urevangelium (evangelho primitivo), Lucas um evangelho paulino, Marcos um evangelho tardio e João um evangelho idealizante.

[6] Zeller (1814-1908) é um dos responsáveis pelo método histórico desenvolvido na Escola de Tübingen, método utilizado por Baur e Strauss na descrição do cristianismo primitivo. Destaca-se em sua farta produção bibliográfica a obra De Apostelgeschichte kritisch untersucht [Atos dos Apóstolos examinado criticamente] de 1854.

[7] Hilgenfeld (1823-1907) desenvolveu em uma via bem peculiar a sua pesquisa sobre os textos joaninos (Die Evangelien and die Briefe des Johannes nach ihrem Lehrbegriff [O evangelho e as epístolas de João após seu ensino]) e Marcos (Das Markusevangelium [O evangelho de Marcos]) em 1849 e 1850 respectivamente. Editor do Zeitschrift für wissenschaftliche Theologie [Jornal de Teologia de Tübingen] a partir de 1858, escreveu uma introdução ao Novo Testamento rigorosamente histórica em 1875: Histor.-kritische Einleitung in das Neue Testament.
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